VI Conferência Internacional de Pesquisa sobre Economia Social e Solidária

VI Conferência Internacional de Pesquisas e Estudos sobre Economia Social e Solidária é uma iniciativa do Centro de Investigação e Pesquisa em Economia Pública e Social (CIRIEC Brasil), do Centro de Ciências do Ambiente (CCA) da Universidade Federal do Amazonas, por meio do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCASA) e instituições parceiras e apoiadores. A sexta edição deste evento será composta por mesas temáticas, grupos de trabalho, palestras, e apresentação de trabalhos. Dessa forma, evento irá congregar docentes e discentes de programas de pós-graduação, pesquisadores, membros do CIRIEC nacional e internacional, técnicos de organizações governamentais e não governamentais, líderes e empreendedores sociais de comunidades locais e também docente e discentes da graduação permitindo o intercâmbio e o surgimento e fortalecimento de redes de cooperação, assim como irá ampliar a divulgação de conhecimentos gerados em todo o mundo sobre a temática.

Cidade: Manaus / Amazonas
Local: UFAM – Universidade Federal Do Amazonas
Data: 29/11/2017 a 02/12/2017

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ECONOMIA PÚBLICA

Artigo : RMC :Desafios sociais da década
Autora: Cristiane Feltre
Dr. Production Engineering – UFSCAR (Brazil) Economist – FCLAr
UNESP Professor, Centre for Economics and Business Administration – PUC-Campinas
Centro de Economia e Administração da PUC-Campinas

Este artigo compõe uma série de artigos e apresenta um breve resumo do Boletim intitulado “RMC: desafios sociais da década” do Observatório de Políticas Públicas e Migrações da RMC da PUC-CAMPINAS, elaborado a partir dos censos demográficos, do Atlas do Desenvolvimento das Regiões Metropolitanas, da Fundação SEADE e do Atlas da Vulnerabilidade Social.

O objetivo do referido boletim é o de promover uma discussão sobre as dificuldades sociais enfrentadas pelos municípios da Região Metropolitana de Campinas (RMC) nesta década. Estas dificuldades estão sendo enfrentadas e os resultados das políticas públicas adotadas para saná-las deverão ser refletidas no próximo censo demográfico, previsto para o ano de 2020.

Entre alguns aspectos sociais, o que se observou é que existe uma discrepância ainda significativa entre os municípios em relação a alguns indicadores da Educação. Alguns pontos que chamaram atenção nos municípios da RMC: 1. Santo Antônio de Posse possui o percentual mais baixo de jovens com 18 anos ou mais com ensino médio completo; 2. Engenheiro Coelho possui a maior taxa de analfabetismo na população acima de 25 anos, apesar de possuir um dos índices mais elevados de presença de crianças entre 5-6 anos na escola; 3. Campinas, Engenheiro Coelho e Indaiatuba tiveram reduzidos o percentual de crianças de 11 a 13 anos nos anos finais do fundamental ou com fundamental completo; e 4. Valinhos e Vinhedo apresentaram um aumento do número de crianças fora da escola na idade de 6-14 anos entre os anos de 2000 e 2010. Esses dados refletem a necessidade de políticas públicas educacionais pontuais nesses municípios, especialmente a partir da adolescência.

Outro indicador preocupante se refere ao problema da extrema pobreza, que diferentemente dos demais municípios da RMC foi elevada em Morungaba e Holambra; e a concentração de renda, com os piores indicadores em Valinhos, Vinhedo, Holambra e Campinas que evoluíram muito pouco em relação à desconcentração e também possuíam os níveis mais elevados de concentração da renda em 2010.
Quanto à vulnerabilidade social, os municípios de Engenheiro Coelho, Monte Mor, Santo Antônio de Posse, Hortolândia e Sumaré foram os que apresentaram os maiores percentuais de sua população vivendo em situação de alta e muito alta vulnerabilidade social, em média 28% da população, enquanto que na RMC a média é de 9%.

Um indicador de vulnerabilidade que se mostrou preocupante foi o percentual de mães, chefes de família, sem fundamental completo e com filhos menores de 15 anos. À exceção dos municípios de Holambra e Nova Odessa, todos os outros municípios da RMC tiveram aumentos nesta taxa, especialmente Engenheiro Coelho, Pedreira, Itatiba, Jaguariúna, Cosmópolis e Santo Antônio de Posse. Esta constatação aponta para a necessidade de um estudo sobre as causas deste problema no conjunto dos municípios da RMC.

Outro indicador de vulnerabilidade é o percentual de jovens que não trabalham, não estudam e ainda se encontram em situação de vulnerabilidade social. Neste sentido precisam de mais atenção os municípios de: Monte Mor (8,2%), Jaguariúna (6,01%), Engenheiro Coelho (5,9%), Cosmópolis (5,87%) e Hortolândia (5,69%), mostrando a maior necessidade de um esforço conjunto das secretarias de educação, trabalho e assistência social.

Quanto à situação habitacional os municípios de Holambra e Hortolândia viram a população vivendo em domicílios com abastecimento de água e esgotamento sanitário inadequados crescer quase cinco vezes. Este percentual cresceu também em Monte Mor, Valinhos, Nova Odessa, Itatiba, Indaiatuba e Paulínia. Também houve aumento em municípios como Itatiba, Sumaré, Pedreira, Valinhos, Hortolândia, Monte Mor, Nova Odessa e Americana do percentual de pessoas que não viviam em domicílios com banheiro e água encanada. Além disso, a taxa anual de imigração por mil habitantes também cresceu entre os municípios de Holambra, Jaguariúna, Paulínia, Valinhos e Morungaba entre 2000 e 2010, o que pode agravar a situação das condições de moradia das pessoas em situação de maior vulnerabilidade. Esta situação demanda desses municípios políticas habitacionais mais adequadas à população mais vulnerável socialmente.

Maiores detalhes sobre os desafios da RMC podem ser encontrados no boletim do Observatório de Políticas Públicas e Migrações da RMC (PUC-CAMPINAS) alocado no sítio institucional: http://www.puc-campinas.edu.br/proext/observatorio-de-politicas-publicas-migracoes-da-rmc/
Este artigo foi originalmente publicado no Jornal Correio Popular de 27/07/2016.

RMC: Pobreza e contradições sociais

Professora Dra. Cristiane Feltre

Contato: cristiane.feltre@puc-campinas.edu.br

Centro de Economia e Administração da PUC-Campinas

Este artigo faz parte da série de artigos “RMC: Desafios sociais da década” e apresenta alguns resultados pobreza, renda e desiguladade do primeiro boletim do Observatório de Políticas Públicas e Migrações da RMC da PUC-CAMPINAS. A RMC é uma região bastante desigual com municípios díspares em relação à renda, pobreza, vulnerabilidade e outros indicadores. Isso se deve em partes ao tamanho das economias de cada um, ao aproveitamento das suas potencialidades, às fragilidades estruturais, mas também é reflexo, das políticas públicas que foram adotadas ao longo do tempo.Para se definir o nível de pobreza, no Brasil, são utilizadas faixas de renda individuais mensais. Assim, são considerados extremamente pobres aqueles que vivem com renda igual ou inferior a R$ 70,00 mensais; e pobres aqueles que sobrevivem com R$140,00 mensais – valores que têm como referência o ano de 2010. Além destas duas faixas, há os indivíduos classificados como vulneráveis – aqueles com renda mensal de até R$ 255,00. De acordo com os dados do último censo demográfico divulgado em 2010, a Região Metropolitana de Campinas (RMC) observou uma redução média no percentual de pessoas extremamente pobres – em 58% – e no de pobres – em 65% –, entre os anos de 2000 e 2010, melhor do que a observada no estado de São Paulo. Em relação à redução no número de pobres se destacam Cosmópolis, Indaiatuba, Nova Odessa, Santa Bárba d’Oeste, Santo Antônio de Posse e Valinhos. Apesar da redução generalizada nesta estatística nos municípios da RMC, Monte Mor e e Engenheiro Coelho possuíam um percentual ainda bastante elevado de pobres em relação ao demais municípios da RMC no ano de 2010. Apenas em dois casos o número de extremamente pobres se elevou: Morungaba e Holambra. Em Holambra, este aumento no percentual de pessoas extremamente pobres conicidiu com um maior número de imigrantes que se deslocaram para o município entre os anos de 2000 e 2010. Provavelmente, estas são pessoas que migram para esses municípios e não encontram emprego e/ou respaldo habitacional e acabam engrossando as estatísticas de pobreza. A redução mais expressiva no número dos extremamente pobres – acima de 70% – ocorreu nos municípios de Arthur Nogueira, Indaiatuba, Itatiba e Valinhos.Em relação à desigualdade, entre os anos de 2000 e 2010 houve uma redução média na concentração de renda de 8,4% na RMC, enquanto que no estado de São Paulo a concentração se reduziu apenas 3,4%. Ainda que o indicador de concentração de renda tenha melhorado, houve uma piora em relação à diferença entre os municípios, ou seja, alguns melhoraram significativamente (Santo Antônio de Posse, Morungaba, Indaiatuba, Paulínia, Monte Mor) e outros muito pouco ou nada melhoraram (Americana, Vinhedo, Holambra e Campinas; e Sumaré e Valinhos). Nestes dois grupos, alguns municípios chamam atenção. No grupo daqueles que observaram redução mais significativa na concentração de renda, Paulínia, que é o município com uma das maiores rendas per capita da RMC, a desconcentração foi observada por uma maior transferência de renda para a classe imediatamente inferior aos 20% mais ricos, ou seja, pouco se transferiu para os cidadãos de rendas mais baixas.No grupo dos que evoluiram pouco ou nada em relação è concentração de renda entre os anos de 2000 e 2010, se destacam, curiosamente os que possuem as maiores rendas por habitante da RMC: Vinhedo, Holambra, Campinas e Valinhos.A saída dos cidadãos que estão localizados em faixas de renda menores para faixas maiores depende do melhor acesso aos programas de qualificação profissional, e, consequentemente da geração de salários de maior valor agregado, e do maior acesso à educação, especialmente dos mais vulneráveis.Enfatizo que esses resultados foram obtidos a partir da análise de dados do censo de 2010 e a pretensão é a de mostrar aos formuladores de políticas públicas como os municípios se encontravam naquele ano. Desses resultados se desprendem perguntas que os municípios devem se fazer como: “E neste momento, como estamos?” “O que devemos fazer para resolver o minimizar os problemas que temos até o próximo censo em 2020?” Maiores detalhes podem ser encontrados no boletim do Observatório de Políticas Públicas e Migrações da RMC (PUC-CAMPINAS) alocado no sítio institucional: http://www.puc-campinas.edu.br/proext/observatorio-de-politicas-publicas-migracoes-da-rmc/

Originalmente publicado no Jornal Correio Popular (15/08/2016)

ECONOMIA SOLIDÁRIA

Boletim Econômico e Social para o Empoderamento dos EES e suas Redes

Leandro Morais

Assim como tratado na Oficina de Mobilização e Articulação do Projeto Redes/SENAES – ADS/CUT (fevereiro/2016), o exitoso processo de produção-comercialização e assessoramento técnico (base de serviços) dos empreendimentos econômicos solidários (EES) em rede depende das dimensões internas (produto, produção, produtividade, marketing, custo-preço etc) bem como das dimensões externas (relações com as políticas públicas, participação política na construção das mesmas etc). Nesse sentido, ambas devem se conectar para, sinergicamente, resultar na sustentabilidade econômica, social e política dos EES e da economia solidária (ESOL) como um todo.

Especificamente em se tratando das dimensões externas, há um aspecto que é completamente negligenciado pelos que vivem e convivem na ESOL que se refere à política macroeconômica e suas “engenharias” criadas e executadas sem uma maior discussão com a sociedade. Quanto menos pessoas souberem do que se trata, melhor….Informar-se acerca destas questões, portanto, possibilita um maior empoderamento social, político e econômico, fundamentalmente para os atores que, dia após dia, realizam a ESOL e são também uma importante base política de sustentação do atual governo.

Mas vamos por partes, com calma. Não são questões triviais, mas é possível absorver as questões técnicas e entender o caminho que nos levam, muitas vezes sem sabermos, sem querermos….Desta forma, será possível, inclusive, compreender aquilo que não se explica, que não está na mídia atual – mídia esta que mais nos desinforma do que nos informa – porque é parte dos artífices e dos ganhadores deste jogo, que é para poucos…..e deste jogo que permanentemente, concentra ainda mais a riqueza nas mãos dos que não produzem, mas apenas sugam a energia dos que realmente vivem do trabalho e de sua produção literalmente suada. Eis os rentistas-parasitas.

Antes de entrarmos nas questões técnicas, já se colocam algumas provocações: a política econômica atual e dos últimos três governos do PT, é “de esquerda” ? É uma política que permite a redução da concentração da renda, da redução da pobreza, da maior inclusão social ? De fato, vivenciamos nos últimos 13 anos, uma melhora das condições sociais e econômicas de parte importante da população brasileira. Milhões de pessoas saíram da pobreza e da miséria, obtivemos ganhos significativos reais do salário mínimo, muitos programas voltados para a agricultura familiar, para a ESOL, mais brasileiros estão na universidade, melhoraram as condições de energia, saneamento para alguns que antes não possuíam etc. Portanto, não podemos “jogar a criança com a água do banho”. O que não significa estarmos cegos perante o que nos forçam a engolir.

Assim, como “roupa suja se leva em casa”, convicto de estarmos em casa ao discutirmos este Boletim, lhes provoco, com algumas questões: quanto pagamos de juros ao longo de 2004-2015 ? Para onde vai este montante ? O que poderia ser feito com este significativo valor, em termos de políticas sociais e de fortalecimento da ESOL ? Para que serve o programa de ajuste fiscal encampado, tido como a mais importante política macroeconômica do 2º Governo Dilma ? Por que é necessário reduzir os programas sociais ? Por que é necessário realizar o famigerado superávit primário ? Por que o retrocesso em ganhos sociais e políticos, como a discussão das alterações na previdência social e no seguro desemprego ? Por que a SENAES corre o risco de desaparecer ? Por que o Programa Bolsa Família sofrerá restrições ? Por que a necessidade de se enxugar os gastos e os servidores públicos ? Estas e muitas outras questões que impactam o nosso dia a dia são consequências da forma pela qual se definiram e se executam a atual política macroeconômica no país.

Mas, como mencionado, temos que ir com calma. Primeiro, devemos entender o que é política macroeconômica. E como e porque ela impacta no funcionamento dos EES.

A política macroeconômica (ou apenas politica econômica) refere-se à intervenção do governo na economia. Refere-se, portanto, à utilização de mecanismos, ferramentas, instrumentos para alcançar alguns objetivos, sendo os principais: crescimento econômico, geração de emprego e renda, estabilidade monetária (controle da inflação) e distribuição de renda. É claro que não são objetivos fáceis de se alcançar em um país, sobretudo nos tempos de hoje. Também, é claro que contemplar a todos não é plenamente possível, inclusive, pois, em alguns momentos, eles são conflituosos. Daí que verificar os objetivos mais perseguidos pelo governo, nos ajuda a entender o perfil deste governo no que se trata da adoção de sua política macroeconômica e suas intenções. Sem dizer que, na essência destes objetivos, há fortes interesses, seja pelo bem, seja pelo mal….

De forma geral, os instrumentos de política macroeconômica são utilizados, com base em suas políticas fiscal (impostos, tributação, distribuição de renda etc); monetária (dinheiro, inflação, crédito), cambial (taxa de câmbio) e comercial (relação com o exterior).

Começaremos por um ponto, que se refere ao tema da inflação. A inflação se traduz pelo aumento dos preços em uma economia, que pode ser explicada por diversos fatores, que fundamentalmente, podem ser de custo ou de demanda. Atualmente, a inflação, que pode ser medida a partir de diferentes metodologias, apresenta como índice oficial, o Índice de Preços de Consumidor Amplo (IPCA). De fato, este vem aumentando, o que revela “pressões inflacionárias” em nossa economia. O remédio, mais usado, nem por isso o mais indicado, é o aumento das taxas de juros (Taxa SELIC, taxa de juros de referência do país). Qual a argumentação ? Aumentando os juros, que, por sua vez, encarece o custo do dinheiro, se consomem menos, pois o crédito se torna mais caro. Consumindo menos, os preços tendem a cair….

O problema é que não dizem que a Selic é também o parâmetro para a remuneração dos títulos públicos do governo, em sua maioria, comprados por agentes econômicos superavitários, ou seja, que possuem um nível de renda mais elevado. Quem são estes em sua maioria ? Grandes investidores, em formas de pessoa física e jurídica. Desta forma, quando aumenta a SELIC, aumenta também a remuneração destes detentores de “papel” do governo. Para se ter uma ideia: a) cada 0,5% de aumento da SELIC, o governo tem que disponibilizar, segundo estimativas, entre R$ 10 a 25 bi adicionais para pagar os dependentes desta renda, desconsiderando a amortização do principal, que aumentaria ainda mais esta conta; b) de 2004-2015 o governo brasileiro disponibilizou quase R$ 2 trilhões para esta brincadeira de mal gosto!!!; c) somente em 2014 o governo federal gastou R$ 978 bi com juros e amortizações da dívida pública, o que representou 45% de todo o orçamento efetivamente executado. Tal quantia corresponde a 12 vezes o que foi destinado à educação, 11 vezes aos gastos com saúde ou mais que o dobro com os gastos com a previdência social. Algo insustentável e incompreensível, para não se dizer criminoso.

Além do que, é falacioso, neste momento, defender a tese de que ao aumentar a SELIC, reduzirá a inflação, pois em nosso país, a inflação se explica, sobretudo, pelo: aumento do custo da energia, da água, dos alimentos; aumento do preço dos chamados “bens com preços administrados” (aqueles vigentes através de contratos, como os pedágios, mensalidades escolares, planos de saúde etc), e a desvalorização cambial, que torna o dólar mais caro em moeda brasileira. Estes fatores explicam, provavelmente, cerca de 80% da inflação no país e não apresentam relação direta com o aumento da SELIC.

Então, para que este discurso que para reduzir a inflação e “acalmar o mercado”, tem que aumentar a SELIC ? Porque o mercado se acalma, se relaxa com doses maiores de juros que aumentam suas contas.

No entanto, num ano de crise (não só econômica, mas também política e institucional), com a já sentida e instaurada desaceleração econômica e aumento do desemprego (já batendo os 12%), o aumento da SELIC intensifica ainda mais a retração econômica, inviabilizando o investimento produtivo e, portanto, a capacidade de geração de emprego e renda. E os preços continuam aumentando….

Por outro lado, defendem o “ajuste fiscal”. O que significa isso ? O ajuste na política fiscal, que por sua vez, se trata da relação entre o que o governo arrecada (receitas) e o que se gasta. Se se arrecada mais do que gasta, tem-se o que se chama de “superávit primário”; ao contrário, “déficit primário”. Para ampliar o superávit, há duas formas: aumentar impostos e-ou reduzir os gastos. Em se tratando dos gastos, vivenciamos uma nítida opção pela redução dos gastos sociais e de infraestrutura. E para que ? Para mostrar “solidez fiscal”, que, a despeito de que seja fundamental o controle e a transparência no uso do dinheiro público, o maior objetivo do atual ajuste é “acalmar o mercado”, lhes dando a garantia de que os juros serão pagos. E, como no momento de desaceleração da economia a arrecadação tende a ser menor, há um esforço ainda maior para a redução dos gastos públicos, que se concretizam via redução dos recursos da educação, da saúde, e dos demais projetos e programas governamentais, onde a ESOL, a partir da SENAES também entra no jogo. E como entra…

O que se pretende argumentar é que, no momento atual, já é visível a possibilidade de retrocessos político, econômico e social. O desemprego vem aumentando numa velocidade considerável…isso levará ao retorno de muitas pessoas para a linha de pobreza, sem dizer o aumento dos problemas sociais. Nesta perspectiva, entende-se que a força política do movimento da ESOL, em seus respectivos territórios e redes, constitui-se uma importante arma para pressionar a atual política macroeconômica de um governo dito “de esquerda”.

Indo nesta direção, por exemplo, os agricultores familiares, sem saberem, possuem uma imensa capacidade real de pressão na condução da atual política macroeconômica. Por que ? Pois colocam cerca de 70% da comida nas mesas de todos os brasileiros. Estes alimentos sim apresentam impactos efetivos na composição dos índices de inflação, por si só, bem como porque sofrem também o impacto do aumento do custo da energia e da água (pois necessitam destes fatores para produzirem e comercializarem), além da desvalorização do câmbio (que torna os insumos produtivos importados mais caros para a produção e a comercialização).

Mas isto não mencionam….e, enquanto isso, “na sala de justiça”, muitos os tratam como os “coitadinhos”, os necessitados de políticas sociais e econômicas para sobreviverem, como se os bancos e as grandes empresas não necessitassem deste aconchego….mas isso podemos tratar posteriormente. Mas que fique ao menos uma lição: não há mudanças estruturais de fato, sem enfrentar estes temas.

Avante!


COMO ESTRUTURAR UMA REDE DE ECONOMIA SOLIDÁRIA[1]

Dimas A. Gonçalves 

  1. O que é uma rede de economia solidária?

São articulações formais ou não formais entre os EES e suas organizações de apoio para de forma conjunta, promover atividades com a finalidade de fortalecer o desenvolvimento de suas atividades econômicas e/ou para promover a comercialização solidária dos seus produtos e serviços, e/ou para promover o consumo coletivo dos bens, produtos e serviços. (TR1,p11; TR3,p24)[2]

Tem como objetivos:

1- fortalecer as redes de produção, comercialização e base de serviços;

2- romper com o isolamento e fragilidades estruturais dos EES;

3- propiciar o desenvolvimento local e territorial;

4- desenvolver estratégias de viabilização de ocupação/trabalho e geração de renda;

5- compartilhar experiências técnicas e informações sobre a produção e mercado; e

6- propiciar ganhos de escala de produção.

  1. Como surgem as redes?

A palavra “rede” de modo corriqueiramente utilizado nos remete a uma trama de fios, que emaranhados entre si, resultam em uma colcha.

As redes surgem da necessidade e da vontade das instituições (associações, cooperativas, por exemplo) e/ou de sujeitos que dela participem. E, principalmente,  do sentimento de pertencimento de composição de um coletivo; que por sinal se caracteriza em um dos maiores desafios das redes sociais. Ou seja, as redes não podem surgir como um proposição externa, mas sim como uma necessidade sentida pelas (os) pessoas envolvidas (os), da sua localização territorial, por adesão livre, espontânea e garantida por parte de seus integrantes e dos princípios defendidos por esta rede. De um lado , a constituição e sustentabilidade de uma rede depende da existência de uma necessidade de um grupo. Do outro, é fundamental que a rede carregue princípios e práticas que contemplem a formação de novos sujeitos antenados nos pressupostos defendidos pela Economia Solidária. Tais como a  autogestão, auto-organização, geração de trabalho e renda e, por fim,  a democracia participativa.

Desse modo, a rede não deve ser dependente de uma ou outra instituição e/ou para realizar uma ação, mas sim, concepção de uma codependência: precisa-se do (a) outro (a) e não necessariamente depender da ação do(a) outro (a) para agir.

Partindo desses pressupostos, cada indivíduo e/ou instituição  se faz presente em uma rede devido aos princípios, porém se perpetua na mesma ação.

Retomando…

A)      Quais situações que revelam a necessidade de criação de uma rede de economia solidária?

– contextos nos quais uma rede se propõe a incidir: político, social, ambiental e/ou econômico;

– necessidade de comercialização: juntar-se para comercializar os produtos de economia solidária, como forma permanente de acesso aos mercados. Reduzindo os custos de logística, embalagens, pós venda etc. ;

– enfrentamento aos grandes produtores capitalistas – empresários do agronegócio e os latifúndios;

– troca de saberes sobre técnicas produtivas, assessorias técnicas, metodologias de formação e capacitação técnica;

– troca de informações de caráter estratégico em negócios: preço médio praticado, inadimplência do mercado, pressão dos grandes compradores, estratégias tributárias e/ou fiscais;

– resgate e fortalecimento de identidades culturais;

– entre outras.

B) Quais são os valores, princípios para a criação de uma rede de economia solidária?

– valorização dos processos educativos, tantos os técnicos como os políticos;

– democracia participativa, transparência e autogestão;

– abrangência dos aspectos não somente econômicos. Tais como: participação das decisões políticas locais, participação da estruturação e controle das políticas públicas e desenvolvimento do território;

– combate à violência sexista: divisão equilibrada e igualitária do trabalho entre homens e mulheres; e

– proximidade das bases, isto é dos Empreendimentos Econômicos Solidários.

C) Quais as condições essenciais para a inserção em uma rede de economia solidária?

– participação em espaços de atuação e construção de políticas da Ecosol;

– ter conhecimento e vivência prática dos princípios da Ecosol;

– participar dos espaços de formação;

– descentralização das informações;

– ações coletivas; e

– adesão a Carta de Princípios e Estatutos da rede.

3) Etapas para a organização de uma rede (proposta de modelo)

1ª. ETAPA

IDENTIFICAR A SITUAÇÃO QUE REVELA A NECESSIDADE DE CRIAÇÃO DE UMA REDE E/OU ORGANIZAÇÃO COLETIVA.

Realizar um diagnóstico das condições e/ou das demandas sociais, políticas, econômicas e/ou ambientais que nos levam a definir a estruturação de uma rede como forma organizativa, articuladora e integradora dos esforços individuais em coletivos.

Responder:

1)      Necessitamos de uma rede de cooperação e/ou de articulação para melhor produzir, melhor comercializar e melhor socializar nossos recursos técnicos? Não existe outra forma organizativa? Sozinhos ganhamos mais?

2)      Quais são os aspectos sociais, econômicos, políticos e ambientais que nos unifica? E quais não nos unifica?

3)      É possível superar problemas individuais com ações coletivas?

4)      Quais seriam os aspectos positivos e negativos de uma organização coletiva? Isto é, em rede para nossos negócios, para nossas vidas?

2ª. ETAPA

QUAIS SÃO OS CAMINHOS?

1)      Identifique os caminhos para superar os problemas e atender as necessidades

2)      Identifique as formas de organização mais apropriada as nossas intenções: Associação, Cooperativas, Grupos de produtores, outros.

3)      Conhecemos todos os conceitos de economia solidária, redes de cooperação, cadeias produtivas, arranjos produtivos, bases de serviços etc?

4)      Precisamos conhecer experiências reais. Estruturação de um programa de visitas.

3ª. ETAPA

CARTA DE PRINCÍPIOS, ESTATUTO E REGIMENTO INTERNO

1)      Identificar os princípios, valores fundamentais para a constituição da identidade coletiva da organização

2)      Elaboração da carta de princípios, estatuto e regimento interno. (Nas visitas solicite esses documentos das experiências. Isso vai ajudar muito a organização – primeiros passos)

4ª. ETAPA

PLANEJAMENTO

1)      Definir data, hora e local para a realização de uma reunião de planejamento estratégico da nova organização. É preciso trabalhar com as agendas de todos, pois esse trabalho necessita de tempo e paciência para se chegar aos consensos necessários. Inicie pelo diagnóstico realizado na 1ª. Etapa.

2)      Discuta, sempre em grupo, quais são os pontos fortes e pontos fracos da nova organização que vocês pretendem fundar. Bem como a missão, valores, visão de futuro e objetivos.

3)      O que precisamos? Estrutura, recursos, pessoas liberadas, formação e/ou capacitação técnica e política dos membros da nova organização.

4)      Quem são nossos parceiros?

5)      Quem são nossos adversários?

6)      Quais nossas metas- resultados esperados? No curto, médio e longo prazos.

7)      Quais são nossos fatores de risco e como superá-los?

8)      Cronograma – quando

9)      Responsabilidades – quem

10)   Orçamento – quanto

11)   Como

12)   Onde

5ª. ETAPA

GESTÃO DOS PROJETOS

1)      Para cada objetivo ou meta (resultado esperado) estruture um projeto. Observando: o que, quando, quem, quanto, como e onde.

2)      Estruture um comitê de gestão dos vários projetos – acompanhamento, controle e avaliação.

3)      Mãos-a-obra. Construa sua rede.

4)      Avante!

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[1]
Conteúdo extraído da publicação Assessoria Técnica em Economia Solidária – Reflexões e experiências – CFES
[2] Termo de Referências – SENAES – Secretaria Nacional de Economia Solidária/ Ministério do Trabalho.